Por Bernardo Ariston
O que está acontecendo na Faixa de Gaza não é mais um conflito, é um colapso humanitário deliberado, é a execução metódica de um povo que há décadas é submetido a um regime de ocupação, cerco e desumanização. Desde outubro de 2023, Israel conduz uma ofensiva militar que deixou mais de 56 mil mortos, entre eles milhares de crianças. Sem desconsiderar o conflito recente entre Israel e Irã, mas aproveitando o recente cessar fogo, é indispensável entendermos que bombardeios contínuos, ataques sistemáticos a hospitais, escolas, abrigos da ONU, centros religiosos e zonas humanitárias, em Gaza, denunciam algo mais profundo do que uma simples resposta militar. Estamos diante de um massacre, há um genocídio em curso.
A justificativa formal é conhecida: Israel reagiu ao atentado terrorista cometido pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, que resultou na morte e no sequestro de civis israelenses. Um crime real, cruel, que deve ser condenado sem ambiguidades, mas, ao usar esse episódio como pretexto para pulverizar Gaza inteira, Israel ultrapassou todos os limites da proporcionalidade, da legalidade e da decência. O que se seguiu não foi um combate a grupos armados, mas uma guerra contra a própria possibilidade de vida palestina.
Mais de 90% das moradias foram danificadas ou destruídas. A infraestrutura elétrica, hídrica e sanitária colapsou. Crianças estão morrendo de sede, doenças infecciosas e fome. A ONU já alertou que há evidências claras de que Israel está usando a privação de alimentos e o cerco humanitário como armas de guerra. Centenas de civis foram mortos enquanto aguardavam ajuda alimentar. Hospitais foram atacados mesmo após coordenadas de segurança serem repassadas às forças israelenses. Famílias inteiras foram soterradas em suas casas. É uma política de punição coletiva, em violação direta ao direito internacional humanitário.
A pergunta que precisa ser feita — e raramente é — é: o que está realmente por trás de tudo isso?
A verdade é que essa guerra atende a uma estratégia de longo prazo: inviabilizar Gaza como território habitável. É o que alguns analistas, inclusive dentro de Israel, já chamam de “limpeza étnica por sufocamento”. Ao destruir sistematicamente as condições mínimas de sobrevivência — água, energia, saúde, educação, cultura e abrigo — Israel empurra a população para o desespero e para o deslocamento forçado. Há, inclusive, propostas de membros do governo israelense para transferir palestinos para o deserto do Sinai, no Egito, o que caracterizaria um crime internacional gravíssimo.
Além disso, a ofensiva militar serve a múltiplos interesses políticos, reforça a base radical da coalizão que sustenta o governo Netanyahu, marcada por setores ultranacionalistas e religiosos que não aceitam qualquer forma de coexistência com os palestinos; redireciona a opinião pública israelense, que vinha em forte mobilização contra reformas autoritárias e tentativas de enfraquecimento do Judiciário; exibe o poder militar de Israel ao mundo, em especial aos Estados Unidos e Europa, consolidando sua imagem como “linha de frente” no combate ao extremismo islâmico e transforma Gaza num laboratório de guerra, onde novos armamentos e táticas de controle populacional são testados para depois serem vendidos no mercado internacional como “tecnologia comprovada em combate real”.
O mundo não pode alegar desconhecimento. Relatórios da ONU, denúncias da Anistia Internacional, do Human Rights Watch, e da própria relatora especial para a Palestina, Francesca Albanese, classificam os atos como crimes de guerra e genocídio. O Tribunal Penal Internacional já emitiu mandados de prisão para líderes israelenses, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e seu ministro da Defesa, por crimes contra a humanidade. Mas, até agora, tudo permanece no plano das palavras — enquanto bombas caem sobre tendas de refugiados.
O que estamos vendo não é uma exceção. É a consequência de décadas de impunidade, silêncio diplomático e duplo padrão. Israel age com a certeza de que nada acontecerá. E por que teria medo, se países como Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha seguem vendendo armas, vetando resoluções e reafirmando “apoio incondicional”? A comunidade internacional tem responsabilidade direta nesse massacre — por ação e omissão.
É preciso romper com esse ciclo. Embargo imediato de armas, sanções econômicas, suspensão de tratados bilaterais, abertura de corredores humanitários e pressão multilateral sobre Israel. Não se trata de tomar partido entre dois lados, mas de posicionar-se diante de um crime. De reconhecer que a Palestina não é apenas uma questão geopolítica — é uma tragédia humana à qual não podemos mais virar as costas.
O genocídio de Gaza está sendo televisionado. Está nos jornais. Nos relatórios da ONU. Nas imagens de crianças enterradas em valas comuns, de hospitais vazios, de professores mortos sobre pilhas de livros. A cada dia que passa, não são apenas palestinos que morrem, é a nossa própria humanidade que sangra, cúmplice, diante da destruição de um povo inteiro.
Até quando?

