Criança autista de seis anos deixa escola sozinha e é encontrada por moradora em Arraial do Cabo: ‘Se levasse, ninguém ia saber’, diz mãe

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Uma criança autista de 6 anos saiu da Escola Municipal Francisco Luiz Sobrinho, em Monte Alto, distrito de Arraial do Cabo, sem supervisão na última segunda-feira (10) e ficou cerca de 15 minutos fora da unidade, segundo a família. O menino, que é não verbal, foi encontrado por uma mulher que passava pela região. Ela acionou policiais que estavam nas proximidades, e a criança foi identificada e devolvida aos responsáveis. 

Segundo a mãe do menino, a escola só entrou em contato com a família depois que a criança já havia sido localizada. Ela contou que foi informada de que o episódio ocorreu durante o recreio. A auxiliar responsável pelo acompanhamento do aluno havia iniciado o trabalho recentemente e ainda não conhecia completamente a rotina da criança nem a estrutura da unidade. 

De acordo com o relato da mãe, o menino correu pelo pátio e, em determinado momento, seguiu para outra área da escola. A profissional teria acreditado que ele havia retornado à sala de aula. Quando a ausência foi percebida, funcionários iniciaram buscas dentro da unidade e nas imediações.

A instituição informou que um portão estava aberto para o descarregamento de alimentos no momento do incidente, o que permitiu a saída do estudante. A direção da unidade disse ainda que nunca havia registrado uma ocorrência semelhante.

A mãe afirma que não responsabiliza exclusivamente a profissional que acompanhava o filho e avalia que houve uma sequência de falhas. Para ela, a auxiliar ainda estava em fase de adaptação e não conhecia suficientemente as características da criança. 

Ela também questiona o fato de o portão permanecer aberto durante o recreio e defende que deveria ter havido uma integração maior entre os novos profissionais, a escola e as famílias antes do início dos atendimentos. 

A família destaca ainda que o menino é não verbal, o que aumentou a preocupação durante o período em que esteve desaparecido. Segundo a mãe, a criança poderia não conseguir informar o próprio nome, endereço ou pedir ajuda caso tivesse sido levada para outro local. 

Outro motivo de preocupação foi a proximidade da escola com uma lagoa. A mãe afirmou que o filho gosta de água, o que aumentou o temor sobre os riscos enquanto ele estava fora da unidade. 

“Se colocasse o meu filho no carro e levasse para qualquer outro lugar, ninguém ia saber”, relatou a mãe.

Famílias relatam falta de auxiliares

O caso aumentou a preocupação de pais e responsáveis por alunos atípicos da rede municipal, que relatam dificuldades após a troca dos profissionais responsáveis pelo acompanhamento dos estudantes. 

O episódio ocorreu em meio à troca dos profissionais responsáveis pelo acompanhamento de alunos atípicos da rede municipal. O serviço passou a ser prestado pelo Instituto Rede de Apoio Social, responsável pela contratação de cuidadores e mediadores. 

Outras mães ouvidas pela reportagem afirmaram que os filhos ficaram mais de uma semana sem acompanhamento após o retorno das aulas. 

Uma delas, mãe de uma menina autista de 6 anos com nível 2 de suporte, contou que levou a filha à escola no primeiro dia de aula, mas não havia profissional disponível para acompanhá-la. 

Segundo ela, a menina permaneceu em casa por mais de uma semana. Após procurar a Ouvidoria da Educação, uma nova cuidadora foi designada para atender a criança. 

A responsável relata que a filha precisou passar novamente por um período de adaptação e apresentou crises após a mudança na rotina. Ela afirma ainda que a criança terá de construir um novo vínculo com a profissional responsável pelo acompanhamento. 

A mãe também diz que outras famílias continuam sem auxiliares e que há relatos de profissionais atendendo mais de uma criança ao mesmo tempo.

Outra queixa envolve a comunicação entre escola e família. Segundo ela, antes da terceirização, a agenda escolar registrava informações sobre alimentação, uso do banheiro, troca de fraldas e outros aspectos da rotina. Após a mudança, esses registros teriam deixado de ser feitos em alguns casos. 

Outra mãe, responsável por um menino autista de 9 anos, não verbal e com nível 3 de suporte, também afirmou que o filho ficou mais de uma semana sem acompanhamento. 

Segundo ela, a própria escola orientou a família a levar a criança para casa devido à ausência de profissional disponível. 

A responsável contou que procurou a Ouvidoria do município e que uma cuidadora começou a acompanhar o estudante apenas na terça-feira, após mais de uma semana sem frequentar as aulas. 

Ela afirma que a alteração da rotina provocou mudanças no comportamento do filho, incluindo crises, episódios de choro e redução no rendimento das terapias. 

A mãe relata ainda que a profissional que acompanhava o menino anteriormente já conhecia suas características e conseguia identificar mudanças comportamentais. Com a troca da cuidadora, o processo de adaptação precisou ser reiniciado. 

Depois do episódio envolvendo a criança de 6 anos, ela decidiu não levar o filho à escola no dia seguinte. 

Para a responsável, o problema não está apenas na contratação de novos profissionais, mas também na falta de um período de integração entre cuidadores, escolas e famílias. 

Segundo ela, os profissionais deveriam receber informações prévias sobre cada criança, conhecer a estrutura das unidades escolares e identificar eventuais riscos antes de iniciarem o acompanhamento. 

As mães ouvidas pela reportagem afirmam ainda que a mudança para o serviço terceirizado ocorreu durante as férias escolares e que não houve comunicação prévia suficiente com as famílias. De acordo com elas, muitos responsáveis só souberam da alteração pouco antes do retorno das aulas. 

O que diz a Prefeitura

Em nota, a Prefeitura de Arraial do Cabo informou que o episódio registrado em Monte Alto foi uma situação pontual e que as providências administrativas cabíveis foram adotadas. 

Segundo o município, o caso é acompanhado pela Secretaria Municipal de Educação e não tem relação direta com a terceirização dos serviços. 

A administração municipal informou ainda que manteve contato com a direção da unidade e com a família do estudante para ouvir os responsáveis e prestar esclarecimentos. 

Sobre os profissionais contratados, a prefeitura afirmou que foram estabelecidos requisitos específicos para o exercício das funções de cuidador e mediador, incluindo habilitações e cursos voltados à Educação Inclusiva.

O município acrescentou que a nova prestação de serviços ainda está em fase de implementação e vem sendo acompanhada pela Secretaria de Educação. Segundo a prefeitura, eventuais problemas identificados durante a execução do contrato serão apurados e, quando necessário, medidas administrativas serão adotadas.

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