Sistema coletor a tempo seco ajuda a minimizar impactos do esgoto na Laguna de Araruama, mas especialistas alertam que medidas complementares são necessárias para a preservação ambiental.
A qualidade da água da Laguna de Araruama, uma preocupação antiga dos moradores e ambientalistas da Região dos Lagos, continua sendo tema de atenção. O sistema de coleta de esgoto conhecido como “tempo seco”, adotado pelas cidades da Região dos Lagos, atua desviando o esgoto para tratamento enquanto não chove, liberando o excesso apenas durante períodos de chuva intensa. Para técnicos da Prolagos e especialistas da área, a técnica tem se mostrado uma medida eficaz a curto prazo, mas que exige investimentos contínuos e ações complementares para garantir resultados duradouros na preservação ambiental.
“O sistema tempo seco é muito interessante e válido. Ele funciona assim: o esgoto chega a uma caixa antes de entrar na lagoa e, enquanto não chove, é enviado para tratamento. Quando há chuva, o excesso passa pela comporta e cai na lagoa. Pode ser uma solução a curto prazo, complementar ou até definitiva, desde que se invista em melhorias”, explicou Cacá, consultor da Prolagos.
Ele acrescenta que há exemplos bem-sucedidos em outras cidades. “Temos o exemplo da Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, que está completamente liberada para o banho porque adotaram o sistema de tempo seco. Em Florianópolis, há 100% de rede separativa, mas foi feito um cinturão na praia para evitar que a água fique poluída. Então, para mim, esse sistema pode funcionar de forma complementar e eficiente, desde que haja investimento contínuo.”
A Prolagos também vem investindo na ampliação da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) da Praia do Siqueira, aumentando a capacidade média de tratamento em cerca de 50%. Equipamentos modernos já foram instalados, e a concessionária segue avançando nas próximas etapas do projeto.
O Portal JS também ouviu o engenheiro e professor Felipe Fraga de Almeida, mestre pela UENF e coordenador do curso de Engenharia Civil da Estácio de Sá – Cabo Frio, e ouviu que o sistema tempo seco não pode ser visto como solução definitiva. Ele reconhece a importância da medida emergencial, mas ressalta que a estrutura da cidade ainda carece de uma rede de esgoto eficiente e independente da drenagem pluvial.
“É uma ideia inteligente, mas paliativa. Quando chove, o esgoto continua chegando ao sistema e, mais diluído, o tratamento se torna menos eficiente. Para curto prazo, foi útil, principalmente na seca, mas não pode ser a única solução”, avaliou o especialista.
Felipe também alerta para o risco de acomodação das políticas públicas diante de soluções temporárias. “Me preocupa considerar uma ação mitigadora como definitiva. Se pensarmos assim, desestimulamos os investimentos e adiamos a solução ideal. O sistema tempo seco foi uma resposta emergencial, mas o foco deveria estar na separação das redes e na ampliação do tratamento. Se a lagoa não tivesse ficado marrom, será que isso teria saído do papel? A Prefeitura tem papel fundamental na aprovação e fiscalização das obras, e a população precisa se conscientizar. Cada ligação irregular e cada descarte incorreto interferem no equilíbrio ambiental da lagoa”, completou.
Em paralelo, a Prolagos vem ampliando as obras de implantação de redes separadoras de esgoto em cidades como Cabo Frio, Búzios, Arraial do Cabo, Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia. O objetivo é garantir que o esgoto sanitário e a água da chuva sigam caminhos distintos — o primeiro direcionado ao tratamento e o segundo à drenagem pluvial. A iniciativa faz parte de um conjunto de ações voltadas à melhoria da saúde pública, da qualidade de vida e à preservação da Laguna de Araruama e de outros ecossistemas da região.
Enquanto novas obras são planejadas e executadas, o sistema tempo seco continua desempenhando um papel importante na redução dos impactos imediatos. Mas, para o futuro, o consenso entre técnicos e especialistas é que a solução definitiva passa pelo investimento em infraestrutura e planejamento urbano, garantindo que a Laguna de Araruama continue sendo um símbolo natural da região.
Texto: Matheus Ferreira


