No dia do padroeiro, fé em Pedro e tradições religiosas evidenciam identidade aldeense

 “Por isso eu lhe digo: tu és Pedro, e sobre essa pedra construirei a minha Igreja. (…) Eu lhe darei as chaves do Reino do Céu” (Mateus 16:18-19). E assim os Evangelhos contam que o futuro apóstolo de Jesus, antes chamado Simão, foi renomeado pelo próprio Cristo. Homônima a ele, a cidade de São Pedro da Aldeia celebra nesta terça-feira (29) o dia de seu padroeiro. Tradicionalmente, os devotos de Pedro materializam a fé através das cores e ornamentos que embelezam a imagem do santo e os barcos de pesca, em procissão, pelas águas da Lagoa de Araruama. Uma reafirmação da memória e da identidade do povo aldeense. O ritual está atipicamente suspenso devido à pandemia, mas resiste no imaginário e na história. 

O costume de consagrar aldeias e vilas a santos celebrados na data de fundação dos locais, leva a crer que a Aldêa de Sam Pedro de Cabo Frio tenha sido alicerçada no dia 29 de junho de 1617 pelos padres Jesuítas. Essa seria a razão pela qual a vila recebeu como padroeiro o primeiro dos papas. Graças à trajetória do personagem bíblico, com passagens similares às cenas vivenciadas no dia a dia dos aldeenses, iniciaram-se as tradições históricas desta terra.

A teoria da data de fundação é defendida pelo historiador Geraldo Ferreira no livro ‘São Pedro da Aldeia quatrocentos anos’. Ele também conta que, com o passar dos séculos, a festa do padroeiro, antes de cunho religioso e urbano, ganhou caráter social, tornando-se um importante fator de confraternização entre os aldeenses de todas as partes do município. Até os moradores da área rural se deslocam para a celebração. O historiador relata, detalhadamente, como as cerimônias eram feitas à época, testemunhando que a tradição praticada atualmente pouco se alterou. 

“Quando o ser humano se coloca em procissão dentro da água ele está, simbolicamente, andando em autodefinição. É um gesto de extremo agradecimento: meu Deus, te agradeço pela vida”

Monsenhor João Alves Guedes

“Aos primeiros minutos do dia 29, às 05:30 da manhã, acontecia a alvorada. A cidade despertava com os sinos badalando, os fogos espocando (…) ao cair da tarde, por volta das 17 horas, a população se deslocava para a praia para aguardar a chegada de São Pedro trazido por pescadores da colônia de pesca Z-16, do Porto da Aldeia, em procissão marítima composta por dezenas de barcos e canoas enfeitados e iluminados. Era um dos pontos altos da festa”, recorda Geraldo.  

Monsenhor João Alves Guedes, padre da Paróquia São Pedro desde 2019. Foto: Bruninho Volotão/Divulgação PMSPA

A procissão marítima em homenagem ao padroeiro dos pescadores continua encantando visitantes e as novas gerações de aldeenses com uma beleza multicolorida movida pela fé. Monsenhor João Alves Guedes, padre da Paróquia São Pedro desde 2019, ressalta o simbolismo de uma procissão ser realizada sobre as águas. “A vida é feita de símbolos e gestos, eles compensam as nossas limitações. Nós não temos condições de ver a fé, o transcendente, mas por meio dos símbolos e sinais vamos entrando nessa realidade. Católicos ou não, somos um povo processional, a pessoa humana está indo sempre adiante. A água, por si, já diz tudo. Água é vida, é asseio, é produção de alimento. Quando o ser humano se coloca em procissão dentro da água ele está, simbolicamente, andando em autodefinição. É um gesto de extremo agradecimento: meu Deus, te agradeço pela vida”, contou. 

“Viva São Pedro!” De acordo com o historiador Geraldo, as palavras eram proferidas pelos fiéis, em praça pública, prenunciando um dia cheio de fé, de alegria e de fraternidade. “A festa de São Pedro era considerada a segunda maior festa do interior do estado do Rio de Janeiro, em qualidade e volume de gente”, afirma. 

O Monsenhor João acredita que o fato da cidade levar o nome do próprio santo e manter uma forte cultura pesqueira aumenta o apelo para que haja um grande número de devotos no município. A pesca artesanal continua sendo uma das principais atividades econômicas da cidade. “Deus se serve de tudo e de todos para construir o máximo. São Pedro tinha como profissão ser pescador e certamente esse é um apelo através do qual há um meio de chamamento para que, por São Pedro, possa se chegar mais facilmente a Deus”, afirmou. 

QUEM FOI PEDRO? 

Monsenhor João conta algumas passagens da história de Pedro, destacando os pontos que fizeram dele um personagem com características modestas, mesmo sendo o mais citado. “Ele era uma pessoa parecida com cada um de nós. Tinha uma família, seu jeito, uma profissão, era questionador e não foi o primeiro a ser chamado por Jesus. Foi o irmão dele, André, que o levou até Jesus. Depois disso, pelo que consta, ele nunca mais saiu de Sua companhia. Mas era uma companhia que não tirava Pedro de sua profissão. Inclusive, até depois da ressurreição de Cristo, há passagens em que ele se encontra pescando”, explica o padre.

“Ele era uma pessoa parecida com cada um de nós. Tinha uma família, uma profissão, era questionador (…) uma síntese de uma pessoa extremamente normal. Mesmo assim, esse homem mostrava liderança”

Monsenhor João Alves Guedes

Apesar da humanidade e até impulsividade, o pescador da Galiléia tornou-se notório por sua liderança, sendo o primeiro dos apóstolos a ministrar a mensagem de Jesus após a sua partida. Por isso, é considerado pela Igreja Católica o primeiro Papa. “Quando Jesus anuncia que vai a Jerusalém para morrer, a reação dele é a mesma que seria a sua, a minha. Ele diz: não, então não vamos. Quando Ele foi preso, Pedro deu uma de bravo e cortou a orelha de Malco. Era uma síntese de uma pessoa extremamente normal. Mas, mesmo assim, esse homem mostrava uma liderança. O medo que ele tinha, talvez até a covardia, não tiraram dele a capacidade de agregar, de coordenar, de chefiar. Após a volta de Jesus para o céu, Pedro foi o primeiro a tomar a palavra. Um pescador, duvidoso, medroso. Esse Pedro é o mesmo de antes e foi chamado para continuar a missão do mestre”, reflete o Monsenhor João. 

PROGRAMAÇÃO 

Este ano, assim como em 2020, a celebração nas águas não será realizada em cumprimento às determinações de contenção à disseminação da Covid-19. Da mesma forma, está suspensa a procissão a pé e a alvorada. Mesmo assim, o cenário atípico não esmoreceu a tradição. “De maneira muito mais forte, otimista e realista, vamos retomar com a procissão marítima quando a pandemia passar. Veja só: o não nos ajuda a construir o sim com muito mais jeito de plenitude. Como hoje eu não pude, amanhã eu vou realizar acrescido com o que eu não pude hoje. Mas esse ano nós vamos ter nossa procissão sim, só que em carreata. É um carro atrás do outro, um gesto processional. Vamos sair às 11h da Nova São Pedro”, reforçou o Monsenhor. 

O dia do padroeiro será marcado, também, por Santas Missas, com início às 8h, às 9h30 e às 18h na Matriz Auxiliar, localizada no bairro Nova São Pedro. Já a carreata com a imagem do Padroeiro, marcada para às 11h, seguirá sentido bairro Morro dos Milagres, passará pelo bairro Baleia e retornará ao centro da cidade, finalizando o trajeto na Matriz Histórica.

Além da programação religiosa, a Paróquia irá promover uma noite de caldos e venda de pastéis na Matriz Histórica, no dia de São Pedro. Obedecendo às medidas de prevenção à disseminação da Covid-19, os alimentos comercializados não poderão ser consumidos no local. 

– Dia 29 de junho: Festa do Padroeiro 
18h: Santa Missa na Matriz Histórica 
19h: noite de caldo e pastel 

A Matriz Auxiliar está localizada na Rua Epaminondes Pereira Nunes, bairro Nova São Pedro. Já a Matriz Histórica fica na Travessa Hildegardo Milagres, n° 7, Centro, São Pedro da Aldeia. 

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